terça-feira, 3 de maio de 2016

O voo de Cília

Cecília adorava o açougueiro, e não era apenas pelo filet mignon que ele vendia. Acreditava que seu coração estava reservado para Dagoberto, apesar da contrariedade da mãe, Hortência, que desejava vê-la trocar alianças com o filho do dono da joalheria: – Filha, o teu futuro está ao lado do Antônio. Ele fez curso técnico em joalheria, logo, logo, vai herdar a loja do pai. É bonitão, educado, apaixonado por ti e, o mais importante, tem tudo pra te dar um futuro tranquilo e seguro – insistia ela. Na cidadezinha de pouco mais de 10 mil habitantes, o destino de 80% das mulheres era o mesmo: concluída a escola, ficavam morando com os pais até se casarem, geralmente com garotos da comunidade, com quem conviveram sempre, desde a infância. Por isso, se dizia que em Três Torres, depois de anos frequentando a mesma escola, se divertindo nas mesmas festinhas no Caça e Pesca, fazendo o tempo passar em bate-papos na praça central e sorvendo milhares de casquinhas na sorveteria do Zito, todos tomavam o mesmo rumo: o do tapete vermelho no longo corredor da igreja São Jorge, onde amigos se casavam com velhos conhecidos. Cília, como era chamada, fraquejou mais de uma vez. Em duas ocasiões, mais como forma de agrado à mãe e menos por amor a Antônio, chegou a namorá-lo. Na segunda vez, Hortência não escondeu a euforia ao ver o casal junto novamente: – Desta vez vai dar certo, fiz uma promessa a Santo Antônio que não vai falhar – comentou com o marido Heitor, enquanto tomavam café na varanda de casa. Heitor tirou os olhos do jornal, mirou Hortência por cima dos óculos que caiam na ponta do nariz, deixou escapar um "huumm" e voltou à leitura. Ela insistiu: – Já estou até vendo os meus netinhos correndo aqui no pátio. Heitor soltou um suspiro e interrompeu a leitura, irritado: – O problema é esse, Hortência. Você quer este casamento para lhe fazer feliz, não fazer a felicidade da sua filha. Deixa o coração definir por ela. Assim como fez comigo. Se eu não o tivesse seguido, não estaria casado contigo, mas sim com a Cássia, mulher do Romeu. Era isso, pelo menos, que a minha mãe queria. Hortência ficou chocada. Como assim, a "Cássia, mulher do Romeu?". Jamais Heitor havia lhe contado isso em quase 30 anos de casamento. Logo a Cássia, a amiga que frequentara a casa deles todo esse tempo, a quem Hortência confidenciara tantos segredos ? Por via das dúvidas, considerou prudente diminuir a rotina dos encontros entre os casais. Os amigos passaram a se visitar menos e os jantares semanais se tornaram mensais, sempre com a justificativa dada por Hortência de que não encontrava mais disposição para tanta festa. Apesar da empolgação de Hortência em ver Antônio como genro, Cília não sentia o mesmo entusiasmo. Ela gostava de Antônio. Aí é que estava o problema. Gostava da mesma maneira há anos, como colegas que foram, vizinhos de rua e amigos que eram. Dava risadas ao lado dele. Se divertiam juntos, passeavam com a turma pela região, privilegiada por uma natureza exuberante. Com Antônio, trocou o primeiro beijo, aos 14 anos, para "experimentar a sensação e matar a curiosidade", como descreveu mais tarde para a inseparável amiga Taís. – Foi debaixo da pitangueira, à beira do rio. Estava um dia tão lindo e ensolarado de verão. Me empolguei. O beijo foi bom, mas não me fez flutuar. Ainda procuro por aquele que me faça voar – disse Cília à amiga. Mas o local do primeiro beijo foi o mesmo que, dois anos depois, deixou uma marca invisível na face esquerda de Cília e uma cicatriz profunda em seu coração. Foi lá que acabou surpreendida por um tapa de Antônio, como reação por ela decidir que não queria mais namorá-lo. O coração de Cília disparava mesmo quando ela cruzava por Dagoberto, seus olhos verdes e rosto rosado. Não foram colegas por muitos anos, já que ele estudou na escola estadual da cidade, só passando para o colégio particular, o Franciscano, a partir do Ensino Médio. Embora se conhecessem (o açougue vendia a melhor carne de Três Torres, e era para lá que toda a cidade rumava aos sábados, para abastecer o churrasco do fim de semana), foi por meio do convívio na escola que Cília e Dagoberto se aproximaram. A ponto de Dagoberto roubar-lhe um beijo na festinha no clube, em um sábado à noite. Depois disso, misteriosamente, se distanciou. Trocavam alguns olhares rápidos, mas ele não tomava iniciativa. Nem ela, geminiana tímida, que já começava a imaginar: – Aposto que ele detestou meu beijo, por isso se afastou. Também, me pegou desprevenida na festa, eu não estava preparada – pensava. Sem esperança de conquistá-lo, Cília cedeu à segunda investida de Antônio, que diferentemente do rival, era ousado, insistente e não desistia dela. A esta altura, a cicatriz do coração já havia fechado e a garota o perdoou. Viveram por mais oito meses a rotina de um segundo namoro, até o dia em que Cília decidiu sair do casulo, seguir o coração, como dizia o pai, e procurar a felicidade. Desta vez, precavidamente, chamou Antônio a sua casa. Na frente dos pais, comunicou que a relação entre os dois terminava naquele dia de setembro e que não haveria uma terceira chance para ambos. Nem ouviu os apelos da mãe e do namorado e saiu porta afora. Seguiu por três quadras, naquele domingo quente e de ruas vazias, chorando cabisbaixa, mas disposta a procurar Dagoberto e declarar o seu amor. Nem percebeu que, na mesma calçada, ele caminhava em sua direção. Só se deu conta do que acontecia quando, pela segunda vez, teve um beijo roubado pelo açougueiro, ali mesmo, à sombra do sobrado da pizzaria. Era uma iluminada tarde de primavera. E Cília finalmente voou.

Onde está o Heinzen?

O Heinzen sumiu naquele sábado. Não apareceu sequer para a tradicional partida de bolão da manhã, no salão do Heringer, a dois quilômetros da sede do município. Estranho, logo ele que era um dos frequentadores mais antigos e que sempre chegava cedo aos encontros. O "Magrelo", como a turma chamava o seu Chevette 85, não foi visto rodando pela cidade, deixando triste até o Fusca 76 do Haas, ao lado do qual o Heinzen sempre estacionava defronte ao salão. Sequestro? Assassinato? Os boatos logo se espalharam, porque boatos, você sabe, voam em cidades pequenas como aquela, na qual os 3 mil habitantes se conheciam pelo nome (ou melhor, pelo sobrenome). Mas quem iria querer sequestrar aquele alemão simples, que tirava sustento do pouco que produzia com a mulher em sua propriedade de três hectares, que abrigava quatro vacas leiteiras, meia dúzia de galinhas, três porcos, dois cachorros e três pirralhos? – Pode ter sido vingança! – o pessoal gelou quando ouviu o Lauxen sugerir isso. Não era à toa que o Lauxen era conhecido como Zangado entre os amigos. Sempre tinha algum comentário depreciativo a fazer, ou um pensamento pessimista para expressar. Pesava contra o Heinzen o fato de ser meio "assanhadinho", como costumavam dizer. Seu casamento quase afundou há alguns anos, quando a Gertrude descobriu que ele andava “saindo com outra”. O que poucos sabiam é que ele tinha se envolvido, há pouco tempo, com uma mulher meio misteriosa de uma localidade vizinha, revelou para espanto geral o Weber, seu amigo mais chegado. – Mas ela é solteira – emendou ele, rapidamente. – Quem iria querer se vingar do Heinzen? – Mas a Gertrude, mulher do Heinzen, é casada. Com o Heinzen – largou o Lauxen, provocando gargalhadas nervosas. Teria o Heinzen sofrido uma recaída e corrido atrás dela?, questionaram. Cogitaram até de acionar o delegado, residente em uma cidade próxima. Porém, desistiram, pois ele teria de percorrer 40 quilômetros em chão batido. Quando chegasse, poderia ser tarde demais para o Heinzen. O relógio já avançava para além das 10 da manhã. Decidiram, então, investigar "por conta". Saiu o grupo de 12 amigos, largando a disputa do bolão pela metade e o Heringer sozinho, tomando conta do salão. – Já vi que vou ter de tirar a cerveja do freezer. Não ficou ninguém aqui para beber – suspirou Heringer, contabilizando as perdas. Com o Weber à frente, o grupo bateu na porta da casa do Heinzen. Como ninguém respondeu, fizeram o mesmo na janela do quarto do casal, quase entortando a veneziana. Nenhuma resposta. Silêncio absoluto. Dormindo não estavam, com certeza, porque o Heinzen era de acordar cedo, antes do despertar do galo, e o carro não estava na garagem. – Os bichos tão alimentados. Os pratos do Ligeiro e do Soldado pela metade e as tinas, cheias d'água – anunciou o Filter vindo do pátio dos fundos, seguido pelos vira-latas. Mas o mistério persistia. Em que buraco, raios, os Heinzen haviam se metido? Foi então que todo mundo se tocou para a praça. Sim, porque na cidade, discussões sobre política, futebol e agora sobre o misterioso sumiço da família Heinzen sempre ocorriam na praça, o ponto de encontro local. Até o prefeito e o padre apareceram. Foi quase uma hora de debates, teorias e suposições, umas 40 pessoas reunidas. Mas o horário do almoço, servido habitualmente ao meio-dia, porque na cidade ninguém gostava de "comer tarde", se aproximava, e o pessoal começava a se dispersar. Afinal de contas, de nada adiantava ficar na praça angustiado, sem notícias do amigo, e passando fome. O Weber, que ficou por último, já se preparava para colocar a chave na ignição do seu Corcel quando avistou um carro levantando poeira na pequena estrada que ligava a cidade à BR. Decidiu esperar. A poucos metros, conseguiu identificar o veículo desconhecido que chegava. Era um Escort. "Bonitaço", pensou, ao ver as rodas esportivas, os vidros totalmente escuros e a pintura metálica "que lembrava os carros de propagandas de TV", admitiu mais tarde, ao descrever a cena para os amigos. – Ainda chegamos a tempo pro almoço – disse o motorista do Escort, ao baixar o vidro da janela. Era o Heinzen. Ao seu lado, a Gertrude, em seu melhor vestido, era só sorrisos, e os três pirralhos não paravam de pular no banco de trás de tanta felicidade. – O que aconteceu, homem de Deus? – perguntou Weber. – Tava toda a cidade preocupada sem notícias de vocês. – Decidi trocar de carro e viajei cedinho até a cidade aqui do lado pra negociar com um vendedor que conheci na última vez que fui no médico que trata da minha coluna. Levei a molecada e a mulher porque eles queriam experimentar a novidade antes de eu comprar. – E precisava ir assim, escondido, sem avisar ninguém? – Tinha meu dinheiro contadinho, e se eu falasse pra alguém e algum invejoso corresse na frente e melasse o meu negócio? Sabe como é, cidade pequena como a nossa, notícias se espalham rápido. O segredo é a alma do negócio – filosofou o Heinzen, despedindo-se do Weber com um abano, um sorriso irônico e um certo ar superior, de quem agora tinha a convicção de que possuía o segundo melhor carro da cidade, só perdendo para picape do prefeito, comprada zero quilômetro meses antes. Deu duas aceleradas, sem tirar o carro do lugar, mas que fizeram o motor responder alto, potente. Em seguida, arrancou. – E ele nem me deixou dar uma sentadinha no banco do motorista pra espiar o carro novo – choramingou o Weber, solitário. Embarcou no Corcel e partiu, deixando a praça vazia.

A última onda

Todo final de tarde o ritual era o mesmo. Guillermo esperava o sol começar a se refletir dourado no mar junto aos molhes para remar com sua prancha rumo às ondas, que ele não abria mão em seu período de férias. Executivo de uma multinacional, solteiro, na faixa dos 30 anos, ganhava o suficiente para surfar em qualquer praia do mundo que desejasse: Indonésia, Havaí, os melhores picos estavam ao seu alcance. Bastava passar o cartão de crédito, comprar a passagem e pegar o avião. Mas ele desprezava esses points, preferidos por 10 entre 10 surfistas. Não por temer suas traiçoeiras ondas, nem por se julgar incapaz de dominá-las. Preferia jogar a prancha sobre a carroceria de sua quatro-por-quatro, dirigir pouco menos de 200 quilômetros e flutuar sobre as formações imperfeitas da praia que ele considerava sua. Algo especial o atraía para aquele balneário ao norte, que começou a frequentar com os pais ainda na pré-adolescência. O casal decidiu comprar uma casa na praia "como investimento". A família gostou tanto do tal investimento que nunca mais o deixou. Gui cresceu vendo as ondas quebrarem contra as pedras. Era capaz de contá-las de olhos vendados e mesmo sem escutá-las. Apenas por senti-las. Filho único e com os pais já falecidos, Gui era dono desta casa e de outros dois imóveis, um apartamento herdado em uma cidade serrana, para o qual pouco ligava, e a cobertura na qual residia, na Capital. Em seus 20 dias de férias anuais (sim, porque na sua empresa, executivo nunca tem tempo para tirar um mês inteiro de descanso), todo o verão, era para o refúgio frente ao mar que sempre retornava. Naquela tarde, porém, o ritual de Gui, que começou a surfar aos 14 anos influenciado pelo brother Kinho, que conheceu naquelas areias, foi um pouco diferente. Enquanto terminava o alongamento antes de entrar na água, como a procurar algo, contemplou o mar, que parecia estranhamente calmo, pouco propício ao surfe. As ondas alcançavam a beira da praia quase sem força, algo incomum à época. Gui se ajoelhou, curvou o tronco duas vezes com as mãos à frente, tocando a areia, como se saudasse o mar. Recuou quatro passos, apanhou a prancha e começou a remar em direção aos outros surfistas, que àquela altura brigavam para tentar encaixar uma boa série, difícil em um dia de ondas tão baixas. Junto ao peito deitado sobre a prancha, Gui carregava uma pequena caixa, semelhante a um baú de alumínio. Abriu a caixa e despejou o conteúdo de seu interior no mar. Eram cinzas. As cinzas do brother Kinho, que foi o seu companheiro e parceiro fiel não apenas na paixão pelo surfe, mas o homem que ele amou, por quem foi amado, e com quem dividiu os melhores e mais apaixonantes momentos da vida. – Fique em paz, meu querido, neste que era o nosso lugar especial – despediu-se Gui, antes de começar a surfar a onda que se aproximava. Diferentemente das demais naquele dia, esta vinha cheia e consistente. Manobrou até o fim a última onda naquela praia. Nos poucos segundos que permaneceu em pé na prancha até encalhar na areia, a água que molhava seu rosto se misturou às lágrimas: – Nunca mais volto para cá – encerrou. Solitário, Gui terá de seguir em busca da onda perfeita, em outra praia, bem distante dali e de suas lembranças. Talvez na Indonésia ou no Havaí. A onda poderá ser perfeita, mas jamais será igual novamente o prazer de surfá-la.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A nave

A amiga da Fernanda tem um “sonho de consumo”. Um Honda Civic, aquele Honda Civic que ela viu na loja, 2014, automático, direção elétrica, motor 2.0, “uma nave”. 60 mil reais, e ela teria de assumir um financiamento de 11 mil. Dá até pena de comprar pra ficar dando “zigue-zague” por essa cidade, diz. Mas o carro é lindo, tem apoio no meio para o braço, entre o assento de couro do motorista e do passageiro. Mas é um projeto para daqui alguns anos, não agora, reconhece a amiga da Fernanda, antes de se despedir dando um tchau para a “Fernandinha”, e explicando que precisa desligar para atender o “outro celular” que toca. Imediatamente, ela se levanta do banco que ocupa bem atrás de mim, e sem desgrudar o telefone da orelha, dirige-se à porta de saída. Desce. Sem que eu e os demais passageiros do ônibus lotado escutemos o início do novo diálogo. Um tanto melhor. Provavelmente, ela repetiria a este interlocutor tudo que antes já ouvimos sobre a história de sua "nave",

quinta-feira, 5 de junho de 2014

O que o esporte nos ensina

Quando eu e a Simone decidimos trocar nossa filha de escola, no final do ano passado, levamos em conta, além da óbvia questão da qualidade do novo colégio, também um fator que sempre consideramos importante na educação: a prática esportiva. Pois esta semana, ao participar da estreia em sua primeira competição oficial na seleção de handebol do Rosário, Manoela e suas colegas de time deixaram uma lição a nós, adultos. Ao terminar a partida, olhei para a Simone, que acompanhava o jogo nas arquibancadas ao meu lado, e sem entender muito o que se passava em quadra, perguntei. “O que elas estão comemorando?”. Mesmo derrotadas por 10 a 8, as meninas se abraçavam, gritavam e pulavam. Do outro lado, o time vencedor assistia à cena, meio incrédulo, sem o mesmo entusiasmo. Mais tarde, nossa filha nos explicou o motivo de tamanha euforia: elas haviam enfrentado uma equipe superior, com jogadoras nascidas no ano de 2000, enquanto todas do time dela eram de 2001. Nessa fase de crescimento em que se encontram, um ano faz bastante diferença. Em quadra, era perceptível a vantagem física das adversárias, mais fortes e mais altas. “Não fizemos feio”, simplificou a Manoela. Como seria bom se exemplos como esse pudessem ser aplicados ao esporte de alto rendimento brasileiro. Em boa parte das vezes, ser vice-campeão – o que significa que você superou dezenas de adversários para chegar ao segundo lugar –, é motivo de vergonha e pode até ser considerado um fracasso. E que sirvam de aprendizado a nós, pais, tantas vezes exigentes na cobrança por resultados de seus filhos.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Sem direito de se omitir

"Nós não nos omitimos", disse um sereno João Carlos Bona Garcia diante da plateia, na sua maioria composta por jovens estudantes que lotavam o auditório da Faculdade de Comunicação da PUCRS, na noite de terça-feira. Estudantes que ainda nem eram nascidos quando Bona Garcia atuava como militante, apanhava e era torturado nos porões escuros da ditadura. E que só conheceram o golpe militar e as consequências do terror que se sucedeu no Brasil, por meio de leituras e documentos. Ou pelos relatos de quem viveu aqueles 21 anos terríveis, caso deste passofundense, economista, advogado e ex-juiz do Tribunal Militar (sim, acreditem), que literalmente sentiu na pele os horrores de um regime imposto à força pelos militares. Nasci em 1964, e cresci alienado. Quase nada conversávamos em casa sobre o golpe e os governos militares. Talvez tenha sido a forma encontrada por meus pais para proteger seus 4 filhos, afinal, vivíamos sob um regime de terror. Quanto menos soubéssemos, melhor. E o governo se encarregava de fazer a sua parte nas escolas, exaltando os presidentes militares e executando a devida lavagem cerebral nos alunos. Lembro das aulas de Moral e Cívica, de marchar uniformizado com meus colegas em todo o 7 de setembro, e de saudar autoridades militares no palanque. Lembro do lema "Brasil, Ame-o ou Deixe-o", que soa absurdo para mim hoje. Os jovens do século 21 não têm o direito de se omitir. Vivem em uma democracia, ainda imperfeita,mas uma democracia. Podem acessar informações, ler livros não censurados. Até os meios de comunicação são livres, embora muitos não usufruam desta liberdade como deveriam. Os jovens, atualmente, se reúnem em grupos, sentam em local público e conversam, trocam ideias que mudam uma rua, um bairro, uma cidade, um país. Podem ir onde desejarem, protestar e voltar para casa sem serem jogados em um camburão para nunca mais darem notícias. Tudo que foi sonegado por mais de duas décadas a jovens como Bona Garcia e a cidadãos brasileiros daquela geração. Os jovens do século 21 têm o dever de se indignar. Só que, ao contrário de Bona Garcia e de muitos como ele, não precisam pegar em armas. Mais um ponto para a democracia. Podem corrigir injustiças, dar recado àqueles que os governam, votando. Muitos brasileiros, nas décadas de 60 e 70, tombaram lutando por isso. A geração atual pode, como bem disse o ex-preso político no auditório da Famecos, viver suas utopias, e torná-las reais. Assim como ele fez. Quem vive sem uma? O livro – Bona Garcia deu seu depoimento durante a cerimônia de lançamento do livro "Histórias para Lembrar, relatos sobre a ditadura de 1964", elaborado por 18 estudantes de jornalismo da Famecos, orientados pelos professores Alexandre Elmi e Vitor Necchi. Uma bela obra, tanto graficamente quanto no conteúdo. E, o que é mais importante, trata-se de um livro impresso, um ato significativo em plena era virtual e de documentos digitais, quando se "acusa" os jovens de não quererem saber de ler e só se interessarem por internet. Ganhará um lugar especial na prateleira lá de casa. Um lugar para não esquecê-lo.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Parou por que, seu juiz?

Estrela e Esmeraldino disputam uma renhida final da segunda divisão, definindo qual dos times participaria do principal campeonato de futebol do Estado no ano seguinte. A torcida estrelense, inflamada, urra junto ao alambrado. Fica ainda mais indignada quando, subitamente, o árbitro interrompe um rápido contra-ataque da equipe local, que colocaria o centroavante Aipim na cara do gol. O apitador levanta os braços, se dirige à lateral do gramado e diz ao chefe do policiamento: - O senhor precisa tomar uma providência e prender quem está me caluniando. Ao perceber o olhar de espanto do policial, continua: - Não está ouvindo que estão me chamando de ladrão, dizendo que eu estou roubando do time deles? Isso é calúnia, exijo que se cumpra a lei. - Mas meu amigo, o estádio inteiro, quase 10 mil pessoas, está lhe chamando de ladrão. Quer que eu prenda todo mundo? Vai faltar camburão! A essa altura, um cidadão baixinho, de bermuda e sapato mocassim, já havia invadido o gramado: - Sou juiz da comarca regional e testemunhei. O árbitro tem razão! Esta partida não pode continuar. Vou impugná-la! - Ô careca, dá o fora, é proibida a entrada no campo de jogo de pessoas estranhas ao espetáculo - retruca o bandeirinha invocado, que já chegava para dar apoio ao árbitro. - Ah não, careca não! É injúria, o senhor se retrate ou lhe prendo! Sabe com quem está falando? De repente, aparece um zagueirão do Esmeralda do tamanho de um poste e largura de um contêiner de porto: - Vamô jogá, vamô jogá, isso aqui tá uma zona. Ô juiz - levanta a voz, dedo em riste na cara do árbitro - Seja homem e manda tirar todo mundo daí. Apita logo e recomeça essa pôrra! - Negão, sai daí! Quer ser expulso? - interrompe o capitão do Esmeralda, empurrando o companheiro de time para longe da confusão. - Como assim, Negão? Isso é racismo. Seu guarda, prende ele! - Para de viadagem, Negão, parece uma bicha. Todos nós te chamamos de Negão lá no Esmeralda! - consegue dizer o capitão, antes de ser surpreendido pelo colega de time, que parte para cima dele, aos berros, sendo contido por outros jogadores. - Racista e homofóbico, ainda por cima. Vou te processar! – esbraveja o Negão. - Nossa, gente, que é isso! Preconceito puro! - diz um rapaz de voz fina e feições delicadas, que ninguém sabia de onde havia vindo, mas também já estava no gramado junto a uma outra dezena de torcedores. Enquanto isso, o juiz da comarca dá voz de prisão ao badeirinha por "desacato à autoridade". Sem alternativas e sem o seu auxiliar, o árbitro dá por encerrada a partida. - Viu que "m" tu fez, seu descendente de uma profissional do sexo! - berra um torcedor, cara colada no alambrado, furioso, mas medindo as palavras para não ser levado ao xadrez também.